25.11.09

Portugal Imortal - um país eterno onde não há vagas

22.11.09

Noitada gaiteira






















©2009 Notícias Magazine/Rui Coutinho

Anti-soarista, Jesus Arenillas acusa Mário Soares de nunca ter aberto mão dos privilégios de classe, circunstância que, segundo o octogenário (da geração de Soares, justamente), o impediu de poder defender cabalmente os interesses do povo. «Não é tanto a questão de ele não ser um dos meus. É mais nunca ter sido um homem capaz de defender as minhas dificuldades. Ele enganou-me! E quando me enganam, para mim acabou! Eu sou de outra galáxia, e só tenho pena é de não ter o dom da palavra!», lamenta-se o marceneiro aposentado, apesar do evidente exagero de quem ainda assim vai conseguindo exprimir a indignação. «Ora, se tivesse o dom da palavra, o que é que fazia?», perguntou em jeito de desafio Bárbara Oliveira: «Engolia-a, como fazem todos os outros!» Ao que Jesus imediatamente reagiu, lembrando que o tempo de engolir as palavras já lá vai: «Isso era no tempo do fascismo, em que a gente tinha de engolir as palavras para não ir preso!»
Reportagem de Sarah Adamopoulos e Rui Coutinho
Mais, aqui.

20.11.09

DIREITOS NEGADOS






2.11.09

ANTÓNIO SÉRGIO [1950-2009]

O LOBO DA FRENTE
Dos escritores sugere-se por vezes que escrevem sempre o mesmo livro, como se se vissem de facto impedidos de escrever um outro, suficientemente diferente para que ninguém desse pela obsessão que os anima. Talvez seja este um padrão (até certo ponto inconsciente), não especificamente literário, mas ainda assim próprio dos autores. António Sérgio não pareceu embaraçado com a possibilidade de também ele se dedicar desde sempre a fazer o mesmo programa de rádio. Vamos começar por chamar-lhe “Som da Frente”, porque era esse o nome do programa mítico que nos anos 80 transformou a rádio portuguesa num lugar de vanguarda – mas também porque a música de que ainda hoje se ocupa é inquestionavelmente um som que nada deve à nostalgia. “Não é o vira o disco e toca o mesmo mas acaba de facto por haver uma linha de orientação que é sempre a mesma.” Um bolo (assim mesmo lhe chama) que aprendeu a confeccionar, mudando-lhe os ingredientes, de uma forma que, com alguma humildade, considera talvez “um pouco menos científica” do que aquela usada por outros nomes paradigmáticos da sua geração, caso de Ricardo Saló ou de Aníbal Cabrita, este último “desperdiçado” para a continuidade numa TSF dominada pelos formatos-espartilho a que António Sérgio aponta justamente o dedo.

Direito à diferença | Uma forma cuja ciência reside numa curiosidade que não o larga e que noutros tempos fez com que fosse “a primeira pessoa a trazer da Holanda um exemplar em vinil do “Boy” dos U2”. Um amor pela rádio que se confunde com o amor pela música e que faz com que jamais consiga ter um disco novo sem querer divulgá-lo. Sentido de missão a que, no espírito do tempo, gosta de chamar “peer-to-peer”, tal como se diz da tecnologia de partilha de ficheiros através da Internet. “Claro que a net vulgarizou isso mas nos anos 80 tocar os The Cure na rádio era uma coisa importante.” Gosta da música com referências literárias, a “que povoa o sonho”, a que se faz também do verbo, que continua a usar como forma de enriquecer a emissão, de “enriquecer o ouvinte”, precisa. Nome maior de uma geração de então denominados “realizadores de rádio” – anteriores aos animadores “que não animam ninguém, que aliás desanimam francamente qualquer ouvinte minimamente atento e exigente”, António Sérgio faz da rádio um sacerdócio de resistência contra os espartilhos “excessivos” que a desvirtuam. “O que as pessoas que advogam as playlists defendem (na estrita linha das políticas das administrações, claro) é que têm de dar às pessoas o que elas querem. Como sabem o que é? É simples: fazem uns estudos de mercado (com uns universos que deixam muito a desejar) às portas dos supermercados, em que perguntam às pessoas o que elas gostam de ouvir. Sinceramente não acho nada fiável, é uma mentira estatística, onde não cabe um Tom Waits. Porque é preciso ver que o problema das playlists é saber o que lá se põe. Uma playlist pode ser recheada de muitas maneiras.” Diversidade e direito à alteridade que prossegue reclamando para a rádio, fazendo do seu programa um lugar de assumido combate. Programa que agora se chama “Viriato 25”, um achado (da autoria da sua mulher) que Luís Montez, responsável pela Radar. sempre visionário, reteve numa lista de várias possibilidades de nomes para suceder ao também inesquecível “A Hora do Lobo” - nome quanto a ele emprestado a um filme de Bergman, na linha da elaboração a que desde sempre António Sérgio nos habituou.

Trabalhar para a censura | Ciente de que a diferença seria mais importante se feita numa rádio de espectro nacional (a Radar emite no éter apenas para Lisboa), Sérgio congratula-se ainda assim pelo alcance da emissão online, que transforma uma rádio local numa emissora de espectro mundial. Outros tempos, estes em que a Internet age também sobre a rádio, muito diferentes daqueles que o Lobo conheceu quando nos tempos do “Som da Frente”, na Rádio Comercial, “toda a rádio era uma rádio de autor.” Vozes que não tinham nada a ver com as da geração anterior, a que Sérgio chama “os clássicos”, fazendo contudo questão de não confundi-los com os situacionistas do regime de então. “Eram homens clássicos por causa da educação que tinham tido, mas isso não se confundia com as ideias, não eram obtusos, embora não se expressassem, porque havia, como hoje há de novo, um mecanismo de auto-censura, que de facto os punha a todos a trabalhar para a censura (risos). Para não criar problemas, porque os havia mesmo.” Problemas de um tempo em que à censura funcionária instalada na generalidade das redacções se sucederia uma outra, vigiada por pessoas cuja missão era manter as emissoras ao serviço dos ideais revolucionários em ebulição. E de que é exemplo uma vez em que, em antena na Rádio Renascença, António Sérgio foi acusado de estar a passar música fascista, da autoria de Ravi Shankar... “O ridículo tinha mudado de campo e havia o equivalente às actuais playlists”. Hoje a ideologia é outra e responde antes de mais a custos. Tempos em que um realizador de rádio (designação oficialmente pretérita) é cada vez mais um luxo. “Os formatos são mais baratos. Os ficheiros de audio são muito pesados, como se sabe, exigem muita memória, mas a memória enbarateceu muito. Eu posso hoje em dia programar horas e horas de emissão, e isso custa muito menos dinheiro do que ter pessoas em antena a serem criativas. A questão do custo é fundamental. Mas é preciso estar atento às consequências de só fazer assim.” Uma delas determina que os mais jovens não ouçam rádio (nos anos 80 ouviam-no a ele, às tardes na Comercial), apesar de um indicador audiométrico recente ter registado um inesperado crescimento para o meio rádio em Portugal. | António Sérgio, “Viriato 25” - Radar [Lisboa 97.8 FM], de 2ª a 6ª, 23h00-01h00 | Emissão online: www.radarlisboa.fm

©2009 Sarah Adamopoulos, fotografia de Rui Coutinho
in Notícias Magazine de 19 de Julho de 2009

PDF do trabalho integral aqui.

29.10.09

SaraMagoo















Se Vasco Pulido Valente, o cronista da porrada por encomenda, se excedeu em inaceitáveis propósitos racistas (classistas, fascistas) sobre José Saramago e o seu Caim da discórdia, Richard Zimler é bastante mais inclusivo: para ele, a insustentável leveza da ignorância afecta a generalidade, incluindo os comentadores de Saramago.

27.10.09

Mercados da solidão

Atende Senhoras [testemunho]

23.10.09

Pedro Feijó ao jornal Público















shamila mussa

«Pedro aponta o dedo ao novo modelo de gestão proposto para as escolas e ao novo estatuto do aluno. "O que o ministério fez foi tirar credibilidade à democracia dentro e fora da escola."»

9.10.09

AGIT-PROP

30.9.09

Centro Mário Dionísio - CASA DA ACHADA

27.9.09

por sucessivas vitórias da vontade

14.9.09

CAMANÉ [no princípio era o fado]







13.9.09

WAYNE RALPH [Entrevista]

Na Primavera de 1966, o canadiano Wayne Ralph fotografou um grupo de pescadores portugueses cujo navio bacalhoeiro estava atracado no porto de St. John's, capital da Terra Nova. No final de 2008, essas fotografias foram publicadas na nm e um desses homens descobriu-se nelas com 18 anos. No Verão de 2009, Wayne Ralph veio a Portugal expor essas imagens a convite do Museu Marítimo de Ílhavo e no dia da inauguração reencontrou-se com o pescador. Aqui se narra esse reencontro, numa conversa em que foi também questão a história comum de dois países unidos pelo bacalhau.
Sarah Adamopoulos | Fotografia Rui Coutinho

11.9.09

BAILE

Até ao próximo dia 10 de Outubro poderá passar pelos Paços do Concelho (a sede da Câmara Municipal de Lisboa) para tomar contacto com um projecto artístico de grande originalidade - por todas as razões substantivas que fazem com que o percurso de uma intervenção plástica possa ser um admirável (e surpreendente) espelho de uma sociedade e da sua história recente. Integrado na Experimenta Design, BAILE ao AR LIVRE traça o caminho percorrido para a realização desta exposição por uma dupla de artistas (Henrique Neves e Clément Darrasse) vocacionada para evocar os interstícios e zonas de sombra remanescentes da nossa História - colonial designadamente. Dupla que com este trabalho também baile a uma mentalidade ainda profundamente arreigada nos procedimentos comunicacionais entre os funcionários-burocratas das instituições e os criadores. Para compreender a intervenção em toda a sua extensão, deverá levar para casa um dos 1000 exemplares do cartaz em formato A1 (disponíveis no hall do edifício camarário junto a um banco Luís XVI ali deixado pelos artistas) no qual se narra o percurso feito (de inúmeras etapas) entre a descoberta do padrão floral de um tecido identificado num filme etnográfico realizado em Timor nos anos 50 e a exposição que pode agora ver. S.A.

30.8.09

Com os holandeses [J. Rentes de Carvalho]

Deus criou o mundo e os holandeses criaram a Holanda. Eis o axioma estafado (que contudo ninguém se atreve a questionar) quando se trata de enaltecer as qualidades demiúrgicas de um povo que reclama para si o feito inigualável de ter arrancado os hectares de terra do seu país ao mar. Ninguém? Não, Rentes de Carvalho, dedicado estudioso dos holandeses, não se fica, e numa das crónicas que servem de objecto a estas linhas vai lembrando que «se em vez do chão de sala arenoso e fácil de trabalhar, plano que dá gosto vê-lo, [Deus] tivesse dado [aos holandeses] de presente as montanhas de granito que deu [a Portugal], com covas, despenhadeiros, ribanceiras, talvez a história não fosse a mesma. (...)»
Notícias Magazine de 30 de Agosto de 2009
Um texto de Sarah Adamopoulos

COM OS HOLANDESES
J. Rentes de Carvalho
Quetzal Editores 2009
172 páginas

29.8.09

Un coeur intelligent (Alain Finkielkraut)

















«La philosophie regarde, la littérature hume et touche.» - Alain Finkielkraut entrevistado para a LIRE de Setembro

22.8.09

Clément e Henrique













©2009 Clément Darrasse

8.8.09

RAÚL SOLNADO [1929-2009]

«Lembro-me da minha primeira namorada. Um dia eu estava com ela, sentado em frente à casa dela, e a mãe dela ia a sair com uma visita que lá estava em casa, e a mãe dela disse: «Dê-lhe comprimentos.» E eu disse: «Dê-lhe também larguras». Acho que foi a primeira piada que eu disse.»

Raúl Solnado com um ano e pouco, no estúdio do fotógrafo oficial da família, na Calçada da Estrela.

É uma dessas figuras, que por habitar o imaginário e o coração de várias gerações de portugueses (a minha avó materna, falecida nos anos 90, venerava-o, a minha mãe tem um inabalável fraquinho por ele) se transforma em alguém enorme, maior do que si próprio, inatingível em toda a sua história. É o nosso último herói nacional, a nossa estrela do teatro de comédia, e dos primeiros anos da televisão. Até ao 25 de Abril não havia outro assim: assim tão cómico, assim tão genuíno, assim tão bravo, e por tudo isso amado por todos. Foi único. Comediante, humorista, promotor do teatro de revista (fundador do Teatro Villaret e da Companhia Portuguesa de Comediantes), protagonista de algumas das grandes rábulas feitas em Portugal, autor de programas que mudaram a televisão portuguesa [“Zip-Zip”, “A visita da Cornélia”]. Herói da guerra também, com um texto que em 1961 pôs a rir os portugueses silenciados até no riso por Salazar [“A Guerra de 1908”], “Solnado que vais a guerra”, monólogo que ridicularizou a guerra colonial, também chamado “A guerra do Solnado”.
Hoje tem duas meninas dos olhos: a neta, a actriz Joana Solnado, e a Casa do Artista, que ajudou a erguer e dirigiu, e que desde 1999 patrocina os últimos anos de vida dos profissionais do espectáculo. Fui almoçar com ele a sua casa (no Bairro Azul, o mais pequeno de Lisboa, como ele gosta de observar com humor): arroz de polvo, feito pela empregada Maria, que foi também quem já quase no fim da entrevista abriu a porta a alguém inesperado e misterioso, ali chegado para entregar a Solnado o que havia prometido 39 anos antes, numa emissão do programa “Zip-Zip”: um manuscrito original, suscitado por um comentário de circunstância de Raúl Solnado durante o programa de televisão. Uma alhada, em suma - ainda assim cheia de qualidades teatrais, notámos ambos. Há nele uma espécie de inabalável 'terrorismo', uma independência a toda a prova, um desprezo pelos habituais constrangimentos à portuguesa, um riso militante. É um homem delicado, afável, genuinamente cómico (sempre pronto para fazer desconcertar). Há também nele aquela tristeza, claro. A dos portugueses, e a dos humoristas.
Quando era pequenino, Lisboa era um lugar cheio de pregões, de manhã à noite. “Eram lindíssimos”, recorda, após o que se põe a entoá-los, com entrega. Quem quer figos quem quer almoçar? Fava riiiica! Carapauuuuu! E fala-me de “um tipo que vendia bolacha americana e que dizia assim: Bolacha americana, tem canela, é para a vizinha e para a cadela!” (risos) “Era tudo muito musical. Havia também os amoladores, geralmente eram galegos, mas esses não falavam, tinham uma gaitinha que sopravam, do grave para o agudo, e do agudo para o grave. Eu tenho saudades disso, e não tenho vergonha de o dizer, acho que já dei bastantes provas de não ser minimamente passadista.”

Sarah Adamopoulos, "INFÂNCIA - Quando eles eram pequeninos" (Edições Nelson de Matos, Lisboa 2008)

19.7.09

HERÓIS NO AR




















©2009 Rui Coutinho/Notícias Magazine

Fomos à procura dos «dias da rádio» que resistem aos formatos (amiúde de génese televisiva) que hoje em dia povoam o espectro radiofónico, fazendo da rádio uma coisa até certo ponto indistinta da televisão e obrigando-nos a todos a ouvir a mesma coisa. Ou impedindo-nos de ouvir rádio. Mundo um pouco paralelo, o dos ouvintes dos quatro programas de autor que honram a história da rádio feita em português. Mundo afinal rico de possibilidades – musicais, educativas, culturais, criativas. E a que a internet tornou o acesso possível a partir de qualquer computador. | Um texto de Sarah Adamopoulos


O LOBO DA FRENTE
António Sérgio, Viriato 25 – Radar [Lisboa 97.8 FM], de segunda a sexta-feira, das 23h00 à 01h00. Emissões online: www.radarlisboa.fm.

DESASSOMBRO
Joel Costa, Questões de Moral – RDP Antena 2, segunda-feira, às 13h15 e às 23h00. Emissões online: http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?prog=1091.

O NARRADOR
Manuel Vilas-Boas, Encontros com o Património – TSF, sábados, ao meio-dia, repete à meia-noite. Emissões online: http://tsf.sapo.pt/Programas/Programa.aspx?content_id=918070.

CONJUGAR O JAZZ
Tiago Santos, Planeta Jazz – Rádio Oxigénio [Lisboa 102.6 FM], sábados, das 20h00 às 22h00. Emissões online: www.oxigenio.fm.

15.7.09

Salvação






















"O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal" - Jorge de Sena

13.7.09

ser tantas