13.5.08

HENRIQUE NEVES na Librairie Française

12.5.08

aparição

28.4.08

[heroes called Albert] Cohen

[heroes called Albert] Camus

27.4.08

[heroes called Albert] Garcia-Alix

22.4.08

ESTRADA DE ÁGUA





ESTRADA DE ÁGUA | Shennong Stream, China Central

S
ão como plantas desenraízadas, arrancadas à terra-natal, levadas para mais de uma centena e meia de metros mais acima, para outra terra, a que agora chamam a sua que remédio. A construção da maior barragem do mundo tirou-lhes as casas, os espaços sagrados da comunidade, mudou-lhes os mortos e as vidas de sítio. Nunca saberemos o que verdadeiramente pensam, ou o que realmente sentem as vítimas do desenvolvimento. Mas, se no caso dos deslocados da Aldeia da Luz, no Alentejo inundado pela Barragem do Alqueva, é possível sem demoras acedermos à indignação, em Shennong ela está vedada ao passante pelos obstáculos próprios à natural opacidade entre humanos de lugares tão distintos e distantes entre si, quando brevemente se cruzam.

São amistosos, oferecem chá, a alma nos retratos, sorriem, mostram as suas vidas de gerações de agricultores nascidos e vividos à beira-rio, são generosos. Um rio (pequeno afluente do Yangtzé) que também ele era outro - um indomável curso sinuoso de água que seguia o seu trilho milenar, entretanto transformado num caminho navegável para o turismo. Queixam-se apenas das qualidades da terra, aqui menos fértil, ainda por criar lastro. Não deixa de ser irónico: que um lugar que transporta o nome do Deus agrário chinês (o lendário Imperador Shen Nong, cerca de 2800 A.C.), a quem se atribui o primeiro tratado da medicina tradicional chinesa, veja nos comecinhos do século XXI a sua terra inundada, revolvida pelo progresso.

Há depois a circunstância transversal a luz que atravessa cada uma destas imagens, sugerindo coisas tão diferentes como sistemas de rega (aspergindo os cultivos), uma núvem de fumo expelida pelo escape de uma motorizada, um incêndio próximo a tomar a paisagem, um espesso nevoeiro envolvendo o casario e as gentes, raios de sol a perfurar os céus depois de uma chuvada, pedaços difusos de um arco-íris indeciso, ou simplesmente a luz aguda do dia a entrar pela janela. A luz que atravessa conferindo mistério e densidade a cada uma destas imagens, e sugerindo a intervenção demiúrgica de uma entidade meta-fotográfica. Mas não. A luz que atravessa cada uma destas imagens decorre tão somente de um acidente, de um acaso produzido por um imponderável grau de deterioração dos vedantes da câmara que albergava a película do fotógrafo. Uma luz, que tal como os retratados em Shennong, não é bem dali, daquele lugar específico. Uma luz que é só destas imagens. [sarah adamopoulos]

Barragem das Três Gargantas - É a maior central hidroeléctrica do mundo, construída no Rio Yangtzé, o maior da China, totalmente operacional a partir de 2009, e que embora vá suprir apenas um décimo do total das necessidades energéticas do país, equivale à energia produzida por duas centrais nucleares. Na origem da deslocação de vários milhões de pessoas, cujas terras têm vindo a ser inundadas pela colossal albufeira (2,3 quilómetros de frente e 185 metros de altura). Este trabalho foi realizado no âmbito de um projecto fotográfico documental apoiado pela Fundação Oriente em 2007. S.A.


Pedro Carvalho Azevedo
[Lisboa, 1975] estudou no AR.CO e trabalha como fotógrafo desde 1997. Como fotojornalista, publica regularmente desde 1999, tendo colaborado com vários jornais e revistas, entre os quais A Capital, Folha de S. Paulo, Diário de S. Paulo [Globo], algumas revistas do Grupo Abril, Notícias Magazine [Global Notícias], EL Pais e Única [Edimpresa]. Como voluntário, trabalhou com a ONG – Associação de incentivo à cultura Papel Jornal, no contexto de um programa de voluntariado para profissionais do jornalismo num bairro pobre (favela) da cidade de S. Paulo (bairro Jd. Ângela na zona sul de S. Paulo, onde foi criada uma oficina de jornalismo para os adolescentes da comunidade), e ainda com a autarquia da cidade de S. Paulo.
Autor dos projectos fotográficos “
Candomblé” e “Casamento Cigano”, Pedro Azevedo assinou ainda um trabalho documental sobre o MSTC - Movimento Sem Teto do Centro (trabalho efectuado a PB num prédio ocupado pelo Movimento no centro da cidade de S. Paulo). Foi co-autor no projecto “© MADALENA”, um trabalho colectivo em torno da construção de um ícone contemporâneo. A exposição “© MADALENA - 12+1 retratos”, esteve exposta de 23 de Março a 20 de Maio na K Galeria, em Lisboa, tendo depois feito uma itinerância por Braga e Angra do Heroismo (Açores).
Actualmente, é colaborador regular das revistas
Notícias Magazine e Notícias Sábado [publicações distribuídas com os títulos Diário de Notícias e Jornal de Notícias] e Única [Expresso].
Bolseiro da Fundação Oriente de Março a Junho de 2007, desenvolveu um projecto fotográfico sobre as consequências da construção da Barragem das Três Gargantas na República Popular da China - trabalho documental, fotografado em médio formato, centrado numa pequena cidade e sua área periférica, nas margens do rio Yangtsé. Executou ainda trabalhos em película médio formato, sobre a nova República Popular da China. Esta exposição, patente na Kgaleria, Lisboa, entre 24 de Abril e 21 de Maio de 2008, resulta também dessa viagem à China.

17.4.08

martin parr