O LOBO DA FRENTE
Dos escritores sugere-se por vezes que escrevem sempre o mesmo livro, como se se vissem de facto impedidos de escrever um outro, suficientemente diferente para que ninguém desse pela obsessão que os anima. Talvez seja este um padrão (até certo ponto inconsciente), não especificamente literário, mas ainda assim próprio dos autores. António Sérgio não pareceu embaraçado com a possibilidade de também ele se dedicar desde sempre a fazer o mesmo programa de rádio. Vamos começar por chamar-lhe “Som da Frente”, porque era esse o nome do programa mítico que nos anos 80 transformou a rádio portuguesa num lugar de vanguarda – mas também porque a música de que ainda hoje se ocupa é inquestionavelmente um som que nada deve à nostalgia. “Não é o vira o disco e toca o mesmo mas acaba de facto por haver uma linha de orientação que é sempre a mesma.” Um bolo (assim mesmo lhe chama) que aprendeu a confeccionar, mudando-lhe os ingredientes, de uma forma que, com alguma humildade, considera talvez “um pouco menos científica” do que aquela usada por outros nomes paradigmáticos da sua geração, caso de Ricardo Saló ou de Aníbal Cabrita, este último “desperdiçado” para a continuidade numa TSF dominada pelos formatos-espartilho a que António Sérgio aponta justamente o dedo.
Direito à diferença | Uma forma cuja ciência reside numa curiosidade que não o larga e que noutros tempos fez com que fosse “a primeira pessoa a trazer da Holanda um exemplar em vinil do “Boy” dos U2”. Um amor pela rádio que se confunde com o amor pela música e que faz com que jamais consiga ter um disco novo sem querer divulgá-lo. Sentido de missão a que, no espírito do tempo, gosta de chamar “peer-to-peer”, tal como se diz da tecnologia de partilha de ficheiros através da Internet. “Claro que a net vulgarizou isso mas nos anos 80 tocar os The Cure na rádio era uma coisa importante.” Gosta da música com referências literárias, a “que povoa o sonho”, a que se faz também do verbo, que continua a usar como forma de enriquecer a emissão, de “enriquecer o ouvinte”, precisa. Nome maior de uma geração de então denominados “realizadores de rádio” – anteriores aos animadores “que não animam ninguém, que aliás desanimam francamente qualquer ouvinte minimamente atento e exigente”, António Sérgio faz da rádio um sacerdócio de resistência contra os espartilhos “excessivos” que a desvirtuam. “O que as pessoas que advogam as playlists defendem (na estrita linha das políticas das administrações, claro) é que têm de dar às pessoas o que elas querem. Como sabem o que é? É simples: fazem uns estudos de mercado (com uns universos que deixam muito a desejar) às portas dos supermercados, em que perguntam às pessoas o que elas gostam de ouvir. Sinceramente não acho nada fiável, é uma mentira estatística, onde não cabe um Tom Waits. Porque é preciso ver que o problema das playlists é saber o que lá se põe. Uma playlist pode ser recheada de muitas maneiras.” Diversidade e direito à alteridade que prossegue reclamando para a rádio, fazendo do seu programa um lugar de assumido combate. Programa que agora se chama “Viriato 25”, um achado (da autoria da sua mulher) que Luís Montez, responsável pela Radar. sempre visionário, reteve numa lista de várias possibilidades de nomes para suceder ao também inesquecível “A Hora do Lobo” - nome quanto a ele emprestado a um filme de Bergman, na linha da elaboração a que desde sempre António Sérgio nos habituou.
Trabalhar para a censura | Ciente de que a diferença seria mais importante se feita numa rádio de espectro nacional (a Radar emite no éter apenas para Lisboa), Sérgio congratula-se ainda assim pelo alcance da emissão online, que transforma uma rádio local numa emissora de espectro mundial. Outros tempos, estes em que a Internet age também sobre a rádio, muito diferentes daqueles que o Lobo conheceu quando nos tempos do “Som da Frente”, na Rádio Comercial, “toda a rádio era uma rádio de autor.” Vozes que não tinham nada a ver com as da geração anterior, a que Sérgio chama “os clássicos”, fazendo contudo questão de não confundi-los com os situacionistas do regime de então. “Eram homens clássicos por causa da educação que tinham tido, mas isso não se confundia com as ideias, não eram obtusos, embora não se expressassem, porque havia, como hoje há de novo, um mecanismo de auto-censura, que de facto os punha a todos a trabalhar para a censura (risos). Para não criar problemas, porque os havia mesmo.” Problemas de um tempo em que à censura funcionária instalada na generalidade das redacções se sucederia uma outra, vigiada por pessoas cuja missão era manter as emissoras ao serviço dos ideais revolucionários em ebulição. E de que é exemplo uma vez em que, em antena na Rádio Renascença, António Sérgio foi acusado de estar a passar música fascista, da autoria de Ravi Shankar... “O ridículo tinha mudado de campo e havia o equivalente às actuais playlists”. Hoje a ideologia é outra e responde antes de mais a custos. Tempos em que um realizador de rádio (designação oficialmente pretérita) é cada vez mais um luxo. “Os formatos são mais baratos. Os ficheiros de audio são muito pesados, como se sabe, exigem muita memória, mas a memória enbarateceu muito. Eu posso hoje em dia programar horas e horas de emissão, e isso custa muito menos dinheiro do que ter pessoas em antena a serem criativas. A questão do custo é fundamental. Mas é preciso estar atento às consequências de só fazer assim.” Uma delas determina que os mais jovens não ouçam rádio (nos anos 80 ouviam-no a ele, às tardes na Comercial), apesar de um indicador audiométrico recente ter registado um inesperado crescimento para o meio rádio em Portugal. | António Sérgio, “Viriato 25” - Radar [Lisboa 97.8 FM], de 2ª a 6ª, 23h00-01h00 | Emissão online: www.radarlisboa.fm
©2009 Sarah Adamopoulos, fotografia de Rui Coutinho
in Notícias Magazine de 19 de Julho de 2009
PDF do trabalho integral aqui.

