Deus criou o mundo e os holandeses criaram a Holanda. Eis o axioma estafado (que contudo ninguém se atreve a questionar) quando se trata de enaltecer as qualidades demiúrgicas de um povo que reclama para si o feito inigualável de ter arrancado os hectares de terra do seu país ao mar. Ninguém? Não, Rentes de Carvalho, dedicado estudioso dos holandeses, não se fica, e numa das crónicas que servem de objecto a estas linhas vai lembrando que «se em vez do chão de sala arenoso e fácil de trabalhar, plano que dá gosto vê-lo, [Deus] tivesse dado [aos holandeses] de presente as montanhas de granito que deu [a Portugal], com covas, despenhadeiros, ribanceiras, talvez a história não fosse a mesma. (...)»
Notícias Magazine de 30 de Agosto de 2009
Um texto de Sarah Adamopoulos
COM OS HOLANDESES
J. Rentes de Carvalho
Quetzal Editores 2009
172 páginas
30.8.09
Com os holandeses [J. Rentes de Carvalho]
29.8.09
Un coeur intelligent (Alain Finkielkraut)

«La philosophie regarde, la littérature hume et touche.» - Alain Finkielkraut entrevistado para a LIRE de Setembro
22.8.09
8.8.09
RAÚL SOLNADO [1929-2009]
«Lembro-me da minha primeira namorada. Um dia eu estava com ela, sentado em frente à casa dela, e a mãe dela ia a sair com uma visita que lá estava em casa, e a mãe dela disse: «Dê-lhe comprimentos.» E eu disse: «Dê-lhe também larguras». Acho que foi a primeira piada que eu disse.»
Raúl Solnado com um ano e pouco, no estúdio do fotógrafo oficial da família, na Calçada da Estrela.
É uma dessas figuras, que por habitar o imaginário e o coração de várias gerações de portugueses (a minha avó materna, falecida nos anos 90, venerava-o, a minha mãe tem um inabalável fraquinho por ele) se transforma em alguém enorme, maior do que si próprio, inatingível em toda a sua história. É o nosso último herói nacional, a nossa estrela do teatro de comédia, e dos primeiros anos da televisão. Até ao 25 de Abril não havia outro assim: assim tão cómico, assim tão genuíno, assim tão bravo, e por tudo isso amado por todos. Foi único. Comediante, humorista, promotor do teatro de revista (fundador do Teatro Villaret e da Companhia Portuguesa de Comediantes), protagonista de algumas das grandes rábulas feitas em Portugal, autor de programas que mudaram a televisão portuguesa [“Zip-Zip”, “A visita da Cornélia”]. Herói da guerra também, com um texto que em 1961 pôs a rir os portugueses silenciados até no riso por Salazar [“A Guerra de 1908”], “Solnado que vais a guerra”, monólogo que ridicularizou a guerra colonial, também chamado “A guerra do Solnado”.
Hoje tem duas meninas dos olhos: a neta, a actriz Joana Solnado, e a Casa do Artista, que ajudou a erguer e dirigiu, e que desde 1999 patrocina os últimos anos de vida dos profissionais do espectáculo. Fui almoçar com ele a sua casa (no Bairro Azul, o mais pequeno de Lisboa, como ele gosta de observar com humor): arroz de polvo, feito pela empregada Maria, que foi também quem já quase no fim da entrevista abriu a porta a alguém inesperado e misterioso, ali chegado para entregar a Solnado o que havia prometido 39 anos antes, numa emissão do programa “Zip-Zip”: um manuscrito original, suscitado por um comentário de circunstância de Raúl Solnado durante o programa de televisão. Uma alhada, em suma - ainda assim cheia de qualidades teatrais, notámos ambos. Há nele uma espécie de inabalável 'terrorismo', uma independência a toda a prova, um desprezo pelos habituais constrangimentos à portuguesa, um riso militante. É um homem delicado, afável, genuinamente cómico (sempre pronto para fazer desconcertar). Há também nele aquela tristeza, claro. A dos portugueses, e a dos humoristas.
Quando era pequenino, Lisboa era um lugar cheio de pregões, de manhã à noite. “Eram lindíssimos”, recorda, após o que se põe a entoá-los, com entrega. Quem quer figos quem quer almoçar? Fava riiiica! Carapauuuuu! E fala-me de “um tipo que vendia bolacha americana e que dizia assim: Bolacha americana, tem canela, é para a vizinha e para a cadela!” (risos) “Era tudo muito musical. Havia também os amoladores, geralmente eram galegos, mas esses não falavam, tinham uma gaitinha que sopravam, do grave para o agudo, e do agudo para o grave. Eu tenho saudades disso, e não tenho vergonha de o dizer, acho que já dei bastantes provas de não ser minimamente passadista.”
Sarah Adamopoulos, "INFÂNCIA - Quando eles eram pequeninos" (Edições Nelson de Matos, Lisboa 2008)


