19.11.10

Fado da NATO [fado menor]

Se os senhores da NATO andassem de autocarro veriam como o povo anda triste. Claro que este povo é sem remédio e que em tristeza nenhum outro o bate, mas não é de melancolia que falo, antes de angústia, de uma aflição que lhes sai pelos olhos e me fere. Num autocarro somos todos velhos. No 726 por exemplo, que dá a volta à cidade, percorrendo infinitas ruas e semáforos entre Sapadores e a Pontinha, somos todos velhos que vamos morrer não tarda. Somos esses velhos doentes a caminho do refúgio do lar, o lugar onde aí sim podemos ser melancólicos e esperar a morte a comer bolachinhas do LIDL. Andassem de autocarro, esses senhores, e conheceriam o rosto de um povo nada talhado para estes compromissos internacionais em que pouca ou nenhuma palavra tem. Saberiam que a soberania que perdemos para o progresso não nos serve, a nós que já tivémos a nossa própria NATO, nesses pretéritos em que fomos excelsos a imperar. Se andassem connosco de autocarro veriam a miséria no fundo dos nossos olhos, nas nossas conversas de miseráveis (as doenças, as revoltas, a agressividade bestial dos deserdados da vida), a nossa velhice (somos antigos, muito antigos), diferente da dos outros velhos da anciã Europa (muito mais linda nas lendas gregas, a apanhar conchinhas com as amigas à beira-mar), porque socialmente desprotegida, abandonada à sua sorte pelos anfitriões dos senhores da NATO este fim-de-semana. Saberiam então o que é um povo sem esperança, derrubado pela miséria que brevemente julgou ter ficado para trás, quando depois de décadas dela se imaginou livre e desimpedido para se reinventar. Triste sina a nossa, impossibilitados que estamos (que somos?) para outra vez conquistar[mos] a Distância/Do mar ou outra, mas que [fosse] nossa!