16.12.10

um sonho






















Que não era suficientemente metafísico!
, dizia Deus sempre que alguém morria, e apesar dos protestos, cada vez mais sonoros, dos defensores dos direitos à transcendência. Os humanitários (que outrora se haviam ocupado de outros problemas e direitos, quando havia ainda no mundo muita gente, em tempos em que a metafísica era apenas um assunto das religiões) chegavam-se às televisões e ah porque isto e mais aquilo, que um homem era ainda assim um Homem (como se a Deus importasse o facto, agora que o declínio da humanidade era sem retorno) e que as coisas não podiam ser assim. Mas elas eram de facto assim: a capacidade metafísica de cada homem dependia única e exclusivamente de Deus. E assim sendo, Deus passava os seus dias de Deus a levar com toda aquela gente que não era suficientemente metafísica, o que ainda assim era uma consequência da harmonia dos actos de que Deus fora o único orquestrador. Nem Deus, que desde sempre fora e permanecia um bom Deus, escapava à ordem natural de que fora o criador.