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Hedda Gabler era filha de um general (que tinha deixado à filha um par de pistolas) e era infeliz como o raio que a parta. O escritor também era infeliz mas escrevia, o que fazia toda a diferença (Hedda nem piano tocava). O marido de Hedda era um medíocre feliz da vida - sou um homem feliz, disse várias vezes, e realmente parecia feliz.
A amiga do escritor era uma rapariguinha da montanha, talvez amiga da Heidi. O juiz Brack (Braque teria sido mais interessante) era um velhote lascivo cheio de manha de viver. A tia era uma maluca que fintava o passar das horas como podia - com criatividade, dizia ela, e o público riu de quase tudo o que disse, porque o público está sempre deserto por uma boa gargalhada, mesmo que seja numa peça trágica.
A actriz que fazia de Hedda estava muito declamadora, e pensei que talvez precisasse de aquecer a Hedda dentro dela para a tornar menos gritante. O actor que fazia de escritor transformou-se realmente no escritor atormentado e levou o público, sem que ninguém desse por isso (ou alguns pouco por ele) ao inferno da clarividência dos mais lúcidos (onde de resto costumo estar, pelo que de repente havia uma multidão de malta adepta da grande ficção universal naquele que é habitualmente um lugar restrito e cheio de estranhezas, cujos habitantes, uns tipos amalucados, não se vêem uns aos outros). O actor que fazia de juiz Brack (Braque teria sido perfeito) fez de juiz Brack com grande justeza, e também ele fez rir o público cheio de risinhos prontos a saltar à primeira tirada risível - muito gosta o público de rir no teatro. Apesar disso, Hedda matou-se, e matou também o escritor raios a partam.