28.11.10

grandes livros, na livraria do costume
























Este e muitos outros livros, no sítio do ás do alfarrabismo: Paulo da Costa Domingos.

21.11.10

Portugal Imortal - um país eterno I

Os portugueses que restavam, os que tinham ficado, pelas razões trágicas que os circunscreviam ao país, eram funcionários dos turistas - em grande número, vindos de toda a parte, constantemente enchendo as cidades e aldeias, os montes e vales, e todos os lugares, de magotes de forasteiros em busca de visões típicas, coisas muito de cá, por vezes anacrónicas e incompreensíveis, e no entanto encantadoras.

Durante anos, haviam andado de eléctrico connosco, um meio de transporte cuja popularidade fora crescendo até se transformar num problema: não havia eléctricos para levar todos sem sacrificar alguém. Os turistas passeavam, tiravam fotografias, e sentavam-se com grande naturalidade nos lugares destinados aos velhos e às mães grávidas ou com crianças pequenas. Não apanhavam o eléctrico dos turistas, um carro vermelho, com headphones disponíveis em várias línguas, porque, constava, era demasiado caro.

Mas talvez nada tivesse mudado se fosse mais barato, porque os turistas queriam ver como vivíamos, sentar-se nos nossos lugares, saber a que cheirávamos, como falávamos. Por isso, nós íamos de pé e cara alegre. De vez em quando, um pickpocket vingáva-nos. Exultávamos. Eles ficavam sem cartões VISA, perdidos de todo. Era a vida, era a guerra, e era só o começo.

No Verão, também eu andava de eléctrico, e tirava fotografias. Vinha em Agosto, ver a família. Tinha pena de não ser de perto de Boticas, para ir ao baile no dia 15 dançar com os meus primos que mal conhecia mas que eram do meu sangue. Ia à Costa da Caparica, comer conquilhas e ver as vistas. Visitava o padre Pires, falávamos dos problemas dos brasileiros. | Sarah Adamopoulos

19.11.10

Fado da NATO [fado menor]

Se os senhores da NATO andassem de autocarro veriam como o povo anda triste. Claro que este povo é sem remédio e que em tristeza nenhum outro o bate, mas não é de melancolia que falo, antes de angústia, de uma aflição que lhes sai pelos olhos e me fere. Num autocarro somos todos velhos. No 726 por exemplo, que dá a volta à cidade, percorrendo infinitas ruas e semáforos entre Sapadores e a Pontinha, somos todos velhos que vamos morrer não tarda. Somos esses velhos doentes a caminho do refúgio do lar, o lugar onde aí sim podemos ser melancólicos e esperar a morte a comer bolachinhas do LIDL. Andassem de autocarro, esses senhores, e conheceriam o rosto de um povo nada talhado para estes compromissos internacionais em que pouca ou nenhuma palavra tem. Saberiam que a soberania que perdemos para o progresso não nos serve, a nós que já tivémos a nossa própria NATO, nesses pretéritos em que fomos excelsos a imperar. Se andassem connosco de autocarro veriam a miséria no fundo dos nossos olhos, nas nossas conversas de miseráveis (as doenças, as revoltas, a agressividade bestial dos deserdados da vida), a nossa velhice (somos antigos, muito antigos), diferente da dos outros velhos da anciã Europa (muito mais linda nas lendas gregas, a apanhar conchinhas com as amigas à beira-mar), porque socialmente desprotegida, abandonada à sua sorte pelos anfitriões dos senhores da NATO este fim-de-semana. Saberiam então o que é um povo sem esperança, derrubado pela miséria que brevemente julgou ter ficado para trás, quando depois de décadas dela se imaginou livre e desimpedido para se reinventar. Triste sina a nossa, impossibilitados que estamos (que somos?) para outra vez conquistar[mos] a Distância/Do mar ou outra, mas que [fosse] nossa!