20.12.10

still

video
Copyright © 2010 sarah_adamopoulos

16.12.10

um sonho






















Que não era suficientemente metafísico!
, dizia Deus sempre que alguém morria, e apesar dos protestos, cada vez mais sonoros, dos defensores dos direitos à transcendência. Os humanitários (que outrora se haviam ocupado de outros problemas e direitos, quando havia ainda no mundo muita gente, em tempos em que a metafísica era apenas um assunto das religiões) chegavam-se às televisões e ah porque isto e mais aquilo, que um homem era ainda assim um Homem (como se a Deus importasse o facto, agora que o declínio da humanidade era sem retorno) e que as coisas não podiam ser assim. Mas elas eram de facto assim: a capacidade metafísica de cada homem dependia única e exclusivamente de Deus. E assim sendo, Deus passava os seus dias de Deus a levar com toda aquela gente que não era suficientemente metafísica, o que ainda assim era uma consequência da harmonia dos actos de que Deus fora o único orquestrador. Nem Deus, que desde sempre fora e permanecia um bom Deus, escapava à ordem natural de que fora o criador.

15.12.10

momento

1Era uma vez em que parei num momento.

Olhei lá para dentro e não avistei o fim.

Até que comecei a cair, a cair muito, para dentro do momento, até deixar de sentir que caía. E quanto mais caía, mais deixava de sentir que caía. Aí, comecei a perder as palavras, a camisa, as calças, os sapatos, até ficar sem roupa, até deixar cair o corpo e o copo e sentir um vento interior, um sopro eléctrico e imóvel quando ela num instante me cruzou o corpo com a língua.

1momento – como reparar avarias na estrada – António Pocinho, os pés frios dentro da cabeça (Fenda, 1999)

10.12.10

liquidação total

Qualquer dia vou direito às palavras e parto-as todas. Não deixo sílaba sobre sílaba, letra sobre letra. Depois, vou direito a cada uma das letras e desmonto-as por peças. Desactivo-as, para ter a certeza de que, no dia seguinte, ninguém me pede os documentos.

liquidação total – livro de cheques – António Pocinho, os pés frios dentro da cabeça (Fenda, 1999)

7.12.10

OBJECTO

Sou um objecto. Aviso já, para depois não me confundirem com um sujeito qualquer ou não pensarem que podem dispor de mim antes do verbo.

Como nunca ninguém me disse como é que eu era, não sei como é que sou, nem tenho palavras para me descrever, a mim e aos outros que estão aqui comigo, do lado do complemento directo.

Fazemos de tudo um pouco: dobramos esquinas, apanhamos correntes de ar, ajudamos todos aqueles que nos procuram em busca de acessórios, sobresselentes e tranquilidade.

De vez em quando, vem alguém buscar-nos para peças, atirar-nos para longe e ir-se embora.

objecto - como reparar avarias na estrada – António Pocinho, os pés frios dentro da cabeça (Fenda, 1999)