13.8.11

chansons

Sempre gostei de canções, das canções, de quase todas, e até daquelas velhas, antigas mesmo, do Petrarca e desses cantigueiros com quem a minha mãe aprendeu a escrever sonetos de um jacto. Uma vez tirei três canções de um livro que escrevi. Abri o livro e tirei-as de lá de dentro, e depois cantei-as, no dia do lançamento desse livro(zito). Os meus poetas preferidos escreveram canções, Boris Vian, Serge Gainsbourg, Hubert-Félix Théfaine, e outros.
Traduzi há umas semanas, do Francês, uma peça de teatro em que há duas canções francesas belíssimas, e que têm aquelas qualidades das canções verdadeiramente boas: parecem simples, quase tolas, mas são óptimas de poesia e de sinceridade humana. Deixo-as por aqui.


Mouloudji

Faut vivre
[
É preciso viver - Tradução de Sarah Adamopoulos]


Serão talvez enormes os olhos do vazio

para melhor comerem as crianças,

e os silêncios e as algazarras,

mas é preciso viver...


E mesmo se cegas em fundo de noite

entre abismos infinitos

milhares de estrelas riem,

é preciso viver...


Não seremos sempre jovens e belos

e teremos mais de dezasseis anos,

e na esperança só incógnita,

mas é preciso viver...


Pode o coração perder o norte

ao vento tenaz do amor que sopra

e que por vezes nos enleva ainda,

mas é preciso viver...


Podemos não ser geniais

(não é Rimbaud quem quer),

e desejar um sentido

para além de todos os mortos

que vagueiam nas nossas cabeças,

mas é preciso viver...


Podemos ser valentes e sacanas

e ter complexos em barda

e o que é pior gostarmos deles,

mas é preciso viver...


Pode o ideal juvenil

que o muro do tempo gastou

ser agora por outros cantado,

mas é preciso viver...


Podemos virar-nos para trás

e ter medo de confessar

que sim, que mudámos e muito,

mas é preciso viver...


Seremos da mesma viagem

sejamos loucos ou sensatos,

e no final é o naufrágio,

mas é preciso viver...


Será o céu do nosso peito

a sentinela adormecida,

e no seu afã gemendo

funâmbulo o coração cego

no fio do presente que foge,

mas é preciso viver...


Dormirá em nós a criança morta

que por vezes ainda esperneia

numa agonia de sonho velho,

mas é preciso viver...


Seremos da engrenagem

dos notários, das heranças

onde triste o coração se afunda,

mas é preciso viver...


Faremos talvez humor negro

sobre o amor que nos dói

mas até que nos diga adeus

é preciso viver...


Pode a morte em todos os horizontes

como um ponto de interrogação

espreitar-nos esbugalhada

mas é preciso viver...


E apesar das juras de amor

e das mentiras do dia-a-dia,

e mesmo se a vida é só uma,

uma só para a eternidade

e que a saibamos falhada...

é preciso viver...



OS QUE TÊM DÚVIDAS

LES GENS QUI DOUTENT

Anne Sylvestre

[tradução de Sarah Adamopoulos]



Gosto dos que duvidam,

daqueles que vacilam,

e entre uma e outra coisa,

não sabem que fazer.

Gosto dos que dizem

e que se contradizem,

quase sem darem por isso.


Gosto dos que hesitam,

tanto que nem parecem

capazes de julgar.

Gosto dos que são

metade verticais

e a outra metade não.



Gosto de ouvi-los cantar

mesmo se passam por parvos.



Gosto dos que entram em pânico,

dos que não são lógicos,

enfim, como deve ser.

Dos que estão acorrentados,

e para não incomodar

tremem como varas verdes.


Dos que não terão vergonha

de serem no fim de contas

uns falhados de si mesmos

por não terem sabido dizer:

Livrai-nos do pior

e fiquem com o melhor”.


Gosto de ouvi-los cantar

mesmo se passam por parvos.


Gosto dos que não ousam

apropriar-se das coisas

e ainda menos dos outros.

Dos que apenas querem ser

uma simples janela aberta

para os olhos das crianças.


Dos que sem qualquer bandeira

e daltónicos da alma

ignoram todas as cores.

Dos que de tão inocentes

jamais verão a História

prestar-lhes quaisquer honras.


Gosto de ouvi-los cantar

mesmo se passam por parvos.


Gosto dos que duvidam

mas desejariam ficar

em paz de vez em quando.

E que não os maltratassem

jamais quando descrentes

ou velhos antes de tempo.


Que se lhes diga que a alma

tem fogos e mais encantos

que todos os tristes da vida.

E que se lhes agradeça

se lhes diga, se lhes grite

Obrigado por terem vivido.”


Obrigado pela ternura

e tanto pior para vocês

que fizeram o que puderam.”