Fazia-me tão bem, ir ali a apanhar vento nos cacilheiros com vista para as estrelas. Durante cada uma dessas viagens, refiz-me, e ao Mundo, e cheguei a Cacilhas (ou a Lisboa), outra, nova, rica. Sei que todos os outros, ou que, em qualquer dos casos, muitos deles, faziam assim também – mudavam o Mundo em cada um desses trajectos de sete minutos de cais a cais, e chegavam, como eu, ao destino mais ricos. Faziam-nos tão bem, aquelas travessias toutes bêtes, porém cheias de promessas marítimas.
Agora somos todos mais pobres num barco mais "rico" – vamos confortavelmente, dormindo sentados as nossas vidas, nós que nos habituámos a sonhá-las de pé, no exterior do Eborense, por exemplo. Agora seguimos sentados, parecendo turistas. Nós, que conhecemos o rio e as suas margens, agora tornados turistas. Turistas a ver a paisagem magnífica mas em que a aventura marítima (que para além de contemplação e de silêncio, requer vento) a que cada um de nós se habituou, não mais pode fazer-se.
Agora vamos ridículos, sentados como em plateias, votados a uma só vista: a que as janelas nos dão. E vamos contrariados, e solidários com os velhos e as mães com carrinhos de bebés, que com dificuldade sobem e descem escadas feitas para gigantes sem limitações, ou jovens eternos, como se a população estivesse na Europa a rejuvenescer.
Um amigo meu considera ser este um complot para nos tornar macambúzios, ou enfim, para nos devolver à tragédia. E no entanto, nos outros barcos não naufragávamos jamais. Já nestes há bóias debaixo dos assentos. E écrans de televisores que por enquanto seguem apagados, mas que prometem ligação futura ao terror.
Se dessem a esse meu amigo a oportunidade de mudar algo em Portugal, ele mudava os barcos da Transtejo, repunha os velhos cacilheiros em circulação e não se falava mais nisso. | S.A.

