25.8.11
13.8.11
chansons
Sempre gostei de canções, das canções, de quase todas, e até daquelas velhas, antigas mesmo, do Petrarca e desses cantigueiros com quem a minha mãe aprendeu a escrever sonetos de um jacto. Uma vez tirei três canções de um livro que escrevi. Abri o livro e tirei-as de lá de dentro, e depois cantei-as, no dia do lançamento desse livro(zito). Os meus poetas preferidos escreveram canções, Boris Vian, Serge Gainsbourg, Hubert-Félix Théfaine, e outros.
Traduzi há umas semanas, do Francês, uma peça de teatro em que há duas canções francesas belíssimas, e que têm aquelas qualidades das canções verdadeiramente boas: parecem simples, quase tolas, mas são óptimas de poesia e de sinceridade humana. Deixo-as por aqui.
Mouloudji
Faut vivre[É preciso viver - Tradução de Sarah Adamopoulos]
para melhor comerem as crianças,
e os silêncios e as algazarras,
mas é preciso viver...
E mesmo se cegas em fundo de noite
entre abismos infinitos
milhares de estrelas riem,
é preciso viver...
Não seremos sempre jovens e belos
e teremos mais de dezasseis anos,
e na esperança só incógnita,
mas é preciso viver...
Pode o coração perder o norte
ao vento tenaz do amor que sopra
e que por vezes nos enleva ainda,
mas é preciso viver...
Podemos não ser geniais
(não é Rimbaud quem quer),
e desejar um sentido
para além de todos os mortos
que vagueiam nas nossas cabeças,
mas é preciso viver...
Podemos ser valentes e sacanas
e ter complexos em barda
e o que é pior gostarmos deles,
mas é preciso viver...
Pode o ideal juvenil
que o muro do tempo gastou
ser agora por outros cantado,
mas é preciso viver...
Podemos virar-nos para trás
e ter medo de confessar
que sim, que mudámos e muito,
mas é preciso viver...
Seremos da mesma viagem
sejamos loucos ou sensatos,
e no final é o naufrágio,
mas é preciso viver...
Será o céu do nosso peito
a sentinela adormecida,
e no seu afã gemendo
funâmbulo o coração cego
no fio do presente que foge,
mas é preciso viver...
Dormirá em nós a criança morta
que por vezes ainda esperneia
numa agonia de sonho velho,
mas é preciso viver...
Seremos da engrenagem
dos notários, das heranças
onde triste o coração se afunda,
mas é preciso viver...
Faremos talvez humor negro
sobre o amor que nos dói
mas até que nos diga adeus
é preciso viver...
Pode a morte em todos os horizontes
como um ponto de interrogação
espreitar-nos esbugalhada
mas é preciso viver...
E apesar das juras de amor
e das mentiras do dia-a-dia,
e mesmo se a vida é só uma,
uma só para a eternidade
e que a saibamos falhada...
é preciso viver...
OS QUE TÊM DÚVIDAS
LES GENS QUI DOUTENT
Anne Sylvestre
[tradução de Sarah Adamopoulos]
Gosto dos que duvidam,
daqueles que vacilam,
e entre uma e outra coisa,
não sabem que fazer.
Gosto dos que dizem
e que se contradizem,
quase sem darem por isso.
Gosto dos que hesitam,
tanto que nem parecem
capazes de julgar.
Gosto dos que são
metade verticais
e a outra metade não.
Gosto de ouvi-los cantar
mesmo se passam por parvos.
Gosto dos que entram em pânico,
dos que não são lógicos,
enfim, como deve ser.
Dos que estão acorrentados,
e para não incomodar
tremem como varas verdes.
Dos que não terão vergonha
de serem no fim de contas
uns falhados de si mesmos
por não terem sabido dizer:
“Livrai-nos do pior
e fiquem com o melhor”.
Gosto de ouvi-los cantar
mesmo se passam por parvos.
Gosto dos que não ousam
apropriar-se das coisas
e ainda menos dos outros.
Dos que apenas querem ser
uma simples janela aberta
para os olhos das crianças.
Dos que sem qualquer bandeira
e daltónicos da alma
ignoram todas as cores.
Dos que de tão inocentes
jamais verão a História
prestar-lhes quaisquer honras.
Gosto de ouvi-los cantar
mesmo se passam por parvos.
Gosto dos que duvidam
mas desejariam ficar
em paz de vez em quando.
E que não os maltratassem
jamais quando descrentes
ou velhos antes de tempo.
Que se lhes diga que a alma
tem fogos e mais encantos
que todos os tristes da vida.
E que se lhes agradeça
se lhes diga, se lhes grite
“Obrigado por terem vivido.”
“Obrigado pela ternura
e tanto pior para vocês
que fizeram o que puderam.”





